Charge de Gerson Kauer
Muite legal!
No Tribunal do Júri, penúltima década do século passado, o réu responde pela autoria do assassinato da esposa. A acusação consegue demonstrar os principais itens da tese que pede a condenação do acusado.
Mas a plateia - e certamente os jurados também - aguardam a manifestação do defensor contratado, criminalista muito conhecido na comarca e na região.
A sessão é interrompida para o almoço, durante o qual o advogado de defesa ultrapassa a Lei Seca. Retomados os trabalhos, o advogado boceja enquanto revisa, com gestos rápidos e nervosos, algumas anotações pessoais, feitas em desorganizados papeluchos. E com um lenço seca o suor que escorre por sua testa, na tarde modorrenta que fica mais pesada pela inexistência de ar condicionado no salão do júri.
- O procurador do réu está com a palavra - afirma o juiz.
- Obrigado, Excelência. Cumprimentando os jurados e os aqui presentes, inicio dizendo que nada do que até aqui escutaram é verdade. Esse réu é um canalha, um facínora!
O dedo indicador apontado pelo advogado de defesa agrava o comentário. Segue-se um momento de profundo silêncio. Todos entreolham-se, sem compreender o que acontece.
Imediatamente, um servidor, ordenado pelo juiz, chega ao pé do ouvido do advogado e lhe diz:
- Doutor, não se engane! O senhor é o defensor do réu...
- Ah, sim, obrigado, meu rapaz - fala o advogado, cabeça balançando.
Ouvem-se risos tímidos pela sala.
- Pois, bem, senhores - gagueja o advogado. Vamos retomar. Eu disse que esse homem aí sentado é um canalha, mas isso eu apenas seguiria dizendo, como a acusação gostaria de ter dito expressamente e não teve habilidade para tanto, se eu não conhecesse os detalhes dos autos...
Segue-se novo silêncio. O advogado mais uma vez consulta suas anotações e retorna a falar.
- Na verdade, senhores, esse homem é um santo! Agüentou calado por anos aquela víbora, aquela percanta, cujos adjetivos eram tão feios que, por conta do pudor, ora me inibo em dizê-los.
E segue assim a fazer uma calorosa e emocionada defesa, com entonações de novela mexicana.
Apesar de seus esforços, o cliente é condenado. Na semana seguinte a procuração é revogada e uma representação por desídia profissional bate na OAB.fonte Espaço Vital
Nenhum comentário:
Postar um comentário